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Noruegueses no Brasil no século XVII? Os rastros esquecidos do Brasil Holandês

Foto do escritor: Rodrigo Braz Vieira
Rodrigo Braz Vieira
há 4 horas
9 min de leitura
Johan Fredrik Eckersbergs illustrasjon av norsk tømmertransport, fra en senere periode enn 1600-tallet
Johan Fredrik Eckersberg, «Tömmerkjörsel og Mærkning», fra Norske Folkelivsbilleder, 1858. Litografi. Public domain / Wikimedia Commons


Todo brasileiro que estudou o período colonial já ouviu falar do Brasil Holandês, da ocupação de Pernambuco e de Maurício de Nassau. O que quase ninguém associa a essa história é a Noruega.

Mas documentos e pesquisas históricas revelam conexões surpreendentes. Já no século XVII, noruegueses circulavam pelas redes marítimas neerlandesas que chegavam ao Brasil. Alguns trabalhavam como marinheiros, outros seguiam para os Países Baixos em busca de trabalho, enquanto a madeira norueguesa abastecia uma das maiores potências marítimas da época.

Esses rastros aparecem cerca de 200 anos antes de 1842, data frequentemente utilizada como marco inicial das relações comerciais diretas entre Brasil e Noruega.

Naquele ano, o navio norueguês Nordstjernen chegou ao Rio de Janeiro vindo de Ålesund com bacalhau norueguês. Na viagem de volta, levou açúcar e café brasileiros.

A partir daí, desenvolveu-se uma relação comercial que se tornaria cada vez mais importante. O bacalhau da Noruega seria incorporado profundamente à culinária brasileira, enquanto o café do Brasil chegaria às mesas norueguesas.

Mas 1842 talvez marque o início da relação comercial direta, e não necessariamente o começo de toda a história.

Para encontrar os capítulos anteriores, precisamos olhar para o século XVII — e para a Holanda.


Nederlandske skipene WIC 1600-tallet
Nederlandske seilskipene WIC

A Holanda era a ponte entre Noruega e Brasil

Historicamente, o termo correto é Países Baixos, embora no Brasil seja comum utilizar “Holanda”. Nos séculos XVI e XVII, as relações entre a Noruega e os Países Baixos eram intensas.

Navios neerlandeses e frísios frequentavam portos noruegueses para comprar produtos, especialmente madeira.

A Noruega possuía enormes recursos florestais. Os Países Baixos, por outro lado, haviam se transformado em uma das principais potências comerciais e marítimas da Europa, mas tinham recursos florestais limitados.

Madeira, tábuas, vigas e outros produtos noruegueses passaram a fazer parte dessa grande economia marítima.

Mas não eram apenas mercadorias que circulavam.

Muitos noruegueses viajavam para cidades neerlandesas em busca de trabalho. Alguns aprendiam profissões e ofícios. Outros embarcavam como marinheiros e entravam em um mercado de trabalho marítimo que ultrapassava em muito as fronteiras da Europa.

Para alguns deles, a Holanda não era o destino final.

A viagem continuava pelo Atlântico.

E um desses destinos era justamente o Brasil.


Mauritstad Recife Brasil Nederlandsk Brasil
Historisk utsikt over Mauritsstad, dagens Recife, under den nederlandske perioden i Brasil

O Brasil Holandês e a Companhia das Índias Ocidentais

Em 1630, a Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais, conhecida pela sigla WIC, conquistou parte de Pernambuco.

A presença neerlandesa no Nordeste brasileiro duraria até 1654.

Recife tornou-se o principal centro dessa ocupação. Durante o governo de João Maurício de Nassau, Recife e Mauritsstad — a Cidade Maurícia — passaram a integrar um importante centro administrativo, econômico e marítimo do mundo atlântico neerlandês.

Navios conectavam os Países Baixos ao Brasil, à África, ao Caribe e a outros territórios.

Soldados, marinheiros, comerciantes e artesãos provenientes de diferentes regiões da Europa circulavam por essas redes.

E entre essas pessoas começam a aparecer também nomes ligados à Noruega.


Jakob Jensen: um norueguês que chegou ao Brasil no século XVII

Um dos exemplos mais claros encontrados até agora é Jakob Jensen.

A historiadora norueguesa Margit Løyland relata sua história no livro Hollendartida i Norge 1550–1750, dedicado ao período de intensa relação entre a Noruega e os Países Baixos.

Segundo Løyland, Jakob Jensen deixou a Noruega e foi para os Países Baixos no início do século XVII para aprender o ofício de ferreiro.

Posteriormente, como aconteceu com muitos outros noruegueses que estavam na Holanda, ele foi para o mar.

Mas sua trajetória não terminou ali.

Jakob Jensen seguiu para o Brasil como soldado a serviço dos neerlandeses.

Segundo Løyland, ele permaneceu no Brasil durante aproximadamente dez anos antes de retornar aos Países Baixos e, posteriormente, à Noruega.

Temos, portanto, um percurso individual bastante concreto:

Noruega → Países Baixos → Brasil → Países Baixos → Noruega

Isso torna sua história especialmente importante.

A conexão entre Noruega, Holanda e Brasil no século XVII deixa de ser apenas uma questão abstrata de comércio marítimo. Um indivíduo efetivamente percorreu essa rota.

Jakob Jensen representa, assim, um dos rastros humanos mais claros identificados até agora entre a Noruega e o Brasil do século XVII.

A obra de Margit Løyland remete, por sua vez, ao historiador Ludvig Daae e ao livro Nordmænds Udvandringer til Nederland og England i nyere Tid, publicado em 1880.

Mas ainda existem muitas perguntas.

Em qual navio Jakob Jensen chegou ao Brasil?

Quando desembarcou?

Em que região viveu?

Em que consistia seu serviço militar?

Sua atuação estava formalmente ligada à Companhia das Índias Ocidentais?

E quais documentos originais serviram de base para os relatos posteriores sobre sua vida?

Responder a essas perguntas será uma das próximas etapas da pesquisa.


Henrick Swenssen: um possível elo entre a Noruega, a WIC e o Brasil

Outro achado nos leva a uma localidade específica da Noruega.

Em documentação relacionada à Companhia das Índias Ocidentais aparece um marinheiro chamado Henrick Swenssen.

Ele consta de um registro de Amsterdã datado de 9 de janeiro de 1647.

Os dados conhecidos são:

Nome: Henrick SwenssenLocal de origem: “Bragenis”Navio: d’ValckFunção: bootsgezel — marinheiro ou homem de convésOrganização: West-Indische Compagnie — WIC

“Bragenis” é muito provavelmente uma grafia neerlandesa ou uma transcrição de Bragernes, hoje parte da cidade de Drammen, na Noruega.

Essa interpretação é reforçada por outros documentos de Amsterdã nos quais a forma “Bragenis” aparece associada explicitamente à Noruega.

Temos, portanto, um possível marinheiro originário de Bragernes trabalhando para a Companhia das Índias Ocidentais em 1647.

Aqui, porém, é importante separar claramente o que já está documentado daquilo que ainda está sendo investigado.

A ligação de Henrick Swenssen com a WIC está documentada. Sua conexão direta com o Brasil ainda precisa ser confirmada.

O nome, o local “Bragenis”, o navio d’Valck, sua função como bootsgezel e sua ligação com a WIC aparecem nos registros.

A próxima etapa é analisar integralmente o documento original de Amsterdã e verificar se o Brasil aparece explicitamente como destino ou parte de sua trajetória.

Caso isso seja confirmado, poderemos ter algo particularmente interessante:

um elo Bragernes–WIC–Brasil documentado em 1647.

Seria uma conexão nominal entre uma pessoa do atual território norueguês e a rede atlântica neerlandesa que incluía o Brasil Holandês.


Recife e Pernambuco no centro dessa conexão atlântica

Para entender a importância dessas trajetórias, é necessário imaginar Recife não apenas como uma cidade do Nordeste brasileiro, mas como parte de uma enorme rede atlântica no século XVII.

Durante o período do Brasil Holandês, embarcações ligavam Pernambuco aos Países Baixos e a outros pontos do Atlântico.

Esses navios precisavam de marinheiros.

Os exércitos precisavam de soldados.

Os navios e portos dependiam de grandes quantidades de materiais.

E a expansão marítima neerlandesa dependia, por sua vez, de redes comerciais que chegavam até países como a Noruega.

Isso não significa que a Noruega tivesse uma relação colonial própria com o Brasil.

Mas mostra como a história local norueguesa podia se conectar a acontecimentos ocorridos a milhares de quilômetros de distância, inclusive no Nordeste brasileiro.


Nederlandske seilskipene 1600-tallet

Madeira norueguesa, navios neerlandeses e o Brasil

As pessoas são apenas uma parte dessa história.

A outra começa nas florestas.

A Noruega era uma importante fornecedora de madeira para os Países Baixos.

Árvores eram derrubadas nas florestas norueguesas, transportadas através dos rios, processadas em serrarias e embarcadas em portos com destino aos mercados neerlandeses.

A região de Drammen é particularmente interessante para essa pesquisa.

As florestas da bacia do rio Drammen, suas serrarias e os portos de Bragernes, Strømsø e Kobbervik participavam de uma economia profundamente conectada ao comércio internacional.

Ao mesmo tempo, os Países Baixos estavam entre as maiores potências navais e construtoras de navios do mundo.

Seus estaleiros produziam embarcações que navegavam para diferentes continentes.

Inclusive para o Brasil.

Isso levanta uma pergunta fascinante:

Navios que transportaram soldados, marinheiros e mercadorias para o Brasil Holandês poderiam ter sido construídos ou reparados com madeira da Noruega?

Ainda não podemos afirmar isso.

Até agora, não foi possível documentar que uma determinada carga de madeira norueguesa tenha sido utilizada em um determinado navio da WIC destinado ao Brasil.

Mas sabemos que madeira norueguesa era exportada para os Países Baixos.

Sabemos que navios neerlandeses e frísios buscavam madeira em portos da Noruega.

E sabemos que navios neerlandeses atravessavam regularmente o Atlântico rumo ao Brasil.

A questão agora é tentar conectar esses diferentes conjuntos de documentos.

Registros alfandegários e comerciais noruegueses podem ser comparados a arquivos de estaleiros, navios e companhias comerciais nos Países Baixos.

Essa é uma das principais linhas de investigação do projeto Brasil–Países Baixos–Noruega: 400 anos.


Das florestas da Noruega ao Brasil

Talvez seja justamente essa mudança de escala que torne essa história tão interessante.

Na Noruega, ela pode começar com algo extremamente local.

Uma floresta.

Uma serraria.

Um porto.

Ou um jovem que deixa sua comunidade em busca de oportunidades na Holanda.

Mas, quando seguimos os rastros, surge um mundo muito maior.

Os Países Baixos não eram apenas um parceiro comercial da Noruega. Eram um dos grandes centros da economia marítima mundial do século XVII.

E para alguns noruegueses, a viagem seguia muito além de Amsterdã.

Jakob Jensen mostra que uma dessas rotas chegou ao Brasil.

Henrick Swenssen mostra que um homem provavelmente originário de Bragernes podia integrar a estrutura marítima da WIC.

E provavelmente existem outros nomes escondidos nos arquivos que ainda não foram estudados sob essa perspectiva.

O que já sabemos sobre noruegueses e o Brasil no século XVII

Jakob Jensen: norueguês. Segundo Margit Løyland, viajou para os Países Baixos, posteriormente foi para o mar e seguiu como soldado neerlandês para o Brasil, onde teria permanecido aproximadamente dez anos.

Henrick Swenssen: registrado em Amsterdã em 1647 como bootsgezel originário de “Bragenis”, provavelmente Bragernes, no navio d’Valck da WIC. Sua ligação direta com o Brasil ainda precisa ser confirmada no documento completo.

Marinheiros noruegueses: noruegueses trabalhavam em ambientes marítimos neerlandeses durante o século XVII.

Madeira norueguesa: a Noruega era uma importante fornecedora de madeira para os Países Baixos.

Brasil Holandês: a Companhia das Índias Ocidentais conquistou parte de Pernambuco em 1630, e Recife tornou-se o principal centro da presença neerlandesa no Nordeste.

A grande pergunta: quantas pessoas, embarcações e cadeias comerciais ainda podem ser rastreadas da Noruega, passando pelos Países Baixos, até o Brasil?



Afinal, essa história começou mesmo em 1842?

O ano de 1842 continua sendo um marco fundamental para entender as relações entre Brasil e Noruega.

Foi quando o Nordstjernen chegou de Ålesund ao Rio de Janeiro transportando bacalhau norueguês e retornou com produtos brasileiros como açúcar e café.

É um excelente ponto para marcar o início da relação comercial direta entre os dois países.

Mas talvez não seja o começo de toda a história.

Os rastros encontrados no século XVII mostram que pessoas provenientes da Noruega já participavam das redes marítimas neerlandesas que chegavam ao Brasil cerca de dois séculos antes.

Isso não significa que Brasil e Noruega tivessem relações bilaterais naquele período.

Significa algo diferente — e talvez mais surpreendente:

noruegueses já faziam parte do mundo atlântico que conectava a Noruega, a Holanda e o Brasil há quase 400 anos.

E provavelmente ainda estamos apenas começando a descobrir essa história.


Você conhece outros rastros de noruegueses no Brasil Holandês?

O Brasil i Norge está desenvolvendo o projeto Brasil–Países Baixos–Noruega: 400 anos, dedicado à investigação de marinheiros, madeira, portos e outras possíveis conexões entre a Noruega, os Países Baixos e o Brasil no século XVII.

Estamos buscando contato com historiadores, pesquisadores, arquivistas, museus, universidades, especialistas em história marítima, pesquisadores de história local, genealogistas, organizações culturais e outras instituições interessadas nessa história.

Talvez você conheça um norueguês registrado em arquivos neerlandeses.

Talvez pesquise a Companhia das Índias Ocidentais, o Brasil Holandês, Pernambuco, Recife, construção naval, comércio de madeira ou migração entre Noruega e Países Baixos.

Talvez exista em algum arquivo local um documento que nunca tenha sido analisado sob essa perspectiva.

Ou talvez sua organização queira acompanhar ou contribuir para o projeto rumo a 2030, quando se completam 400 anos da conquista de Pernambuco pela WIC.


Estamos reunindo pessoas e instituições interessadas em conhecer mais, compartilhar fontes, contribuir com conhecimento ou participar de futuras colaborações.


Entre em contato:

Rodrigo Braz Vieira

Brasil i Norge


Perguntas frequentes

Quando começaram as relações entre Brasil e Noruega?

1842 é um marco importante da relação comercial direta, quando o navio Nordstjernen viajou de Ålesund ao Rio de Janeiro com bacalhau norueguês e retornou com produtos brasileiros. No entanto, existem conexões humanas e comerciais através dos Países Baixos que remontam ao século XVII.

Havia noruegueses no Brasil no século XVII?

Sim. A historiadora Margit Løyland relata o caso de Jakob Jensen, um norueguês que viajou para os Países Baixos e posteriormente seguiu para o Brasil como soldado a serviço dos neerlandeses.

Quem foi Jakob Jensen?

Jakob Jensen foi um norueguês que, segundo Margit Løyland, viajou para os Países Baixos no início do século XVII para aprender o ofício de ferreiro. Mais tarde foi para o mar e seguiu para o Brasil como soldado neerlandês, onde teria permanecido por aproximadamente dez anos.

Qual era a relação entre Noruega e Holanda no século XVII?

Existiam importantes vínculos comerciais e migratórios. Madeira norueguesa era exportada para os Países Baixos, enquanto noruegueses viajavam para cidades neerlandesas em busca de trabalho, inclusive na navegação.

Noruegueses trabalharam para a Companhia das Índias Ocidentais?

Existem registros de pessoas provenientes da Noruega vinculadas à WIC. Um exemplo é Henrick Swenssen, registrado em Amsterdã em 1647 como marinheiro originário de “Bragenis”, provavelmente Bragernes, no navio d’Valck. Sua ligação direta com o Brasil ainda está sendo investigada.

Madeira da Noruega foi usada em navios do Brasil Holandês?

Sabemos que madeira norueguesa era exportada em grandes quantidades para os Países Baixos. Até agora, porém, não foi possível documentar que uma carga específica tenha sido utilizada em um determinado navio da WIC que navegou para o Brasil. Essa é uma das questões centrais da pesquisa.


Fontes e leituras

Løyland, Margit. Hollendartida i Norge 1550–1750. Oslo: Spartacus, 2012. Especialmente pp. 124–125.

Daae, Ludvig. Nordmænds Udvandringer til Nederland og England i nyere Tid. Christiania, 1880.

Stadsarchief Amsterdam. Ato notarial de 9 de janeiro de 1647 referente a Henrick Swenssen, “Bragenis”, d’Valck, bootsgezel, West-Indische Compagnie.

Open Archieven / Stadsarchief Amsterdam. Documentação complementar de Amsterdã na qual a forma geográfica “Bragenis” aparece associada à Noruega.

Brazilian-Norwegian Chamber of Commerce. Historic Landmarks of the Brazil–Norway Relationship 1822–2022.

Brasil–Países Baixos–Noruega: 400 anos. Projeto de pesquisa em andamento sobre marinheiros noruegueses, madeira, portos e conexões entre Noruega, Países Baixos e Brasil no século XVII.

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