Martin Ødegaard cresceu em Drammen — e o campo onde tudo começou ainda está de pé
- Rodrigo Braz Vieira

- há 10 horas
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Um carioca em Drammen, o capitão da Noruega e a Copa do Mundo que se aproxima

Tem um campinho de grama sintética num bairro residencial de Drammen, cidade a 40 quilômetros de Oslo, que os moradores chamam de Kjappen. Meu filho de quatro anos brinca lá e anda de bicicleta todos os dias durante o período da creche. Ao lado do campo fica a creche onde ele estuda. Um dos seus melhores amigos na turma mora na casa que foi da família Ødegaard. Minha esposa cresceu na casa literalmente ao lado dessa mesma família. Eu moro a menos de cem metros do campo.
Sou carioca. Morei dois anos em Oslo, me mudei para Drammen há cinco anos. E, sem planejar, acabei me instalando no coração geográfico da maior história do futebol norueguês.
Martin Ødegaard — capitão da seleção norueguesa, titular do Arsenal e um dos melhores meias do mundo, cresceu aqui. No Strøtvet, bairro de casas com jardim, vista para o Drammensfjord e neve no inverno. O Kjappen era literalmente o quintal dele.


Como Hans Erik Ødegaard e os vizinhos de Drammen financiaram o campo que formou o capitão da Noruega
Em 2005, Hans Erik Ødegaard, ex-jogador profissional do Strømsgodset e pai de Martin, então com seis anos, reuniu entre 15 e 20 famílias do bairro. Cada uma contribuiu com 50.000 coroas. O objetivo era simples: transformar o campo de terra batida do Kjappen em grama sintética. Com terra batida, não era possível treinar com qualidade. Com grama sintética, o garoto podia treinar todos os dias, com qualidade, o ano todo, pelo menos nos meses sem neve.
A aposta deu certo.
Além de reformar o campo, Hans Erik e um outro pai do bairro, Espen Oland, criaram do zero a seção de futebol dentro do clube local Drammen Strong — fundado em 1932, mas até então sem time de futebol. Hans Erik se tornou o primeiro treinador do time do próprio filho. Minha filha jogou um ano no Drammen Strong.
Em 2015, quando Martin foi vendido ao Real Madrid com apenas 16 anos, o Strømsgodset repassou 250.000 coroas ao Drammen Strong. O dinheiro foi usado para trocar o gramado do Kjappen, que após uma década de uso intenso estava completamente destruído. O campo foi financiado duas vezes pelo mundo Ødegaard: primeiro pelo pai e famílias do bairro, depois, indiretamente, pelo filho via Real Madrid.
Por que é tão difícil formar jogadores de futebol na Noruega: neve, gelo e três meses sem treino
Uma coisa que os brasileiros não costumam imaginar é que jogar futebol na Noruega exige uma negociação constante com a natureza. Durante pelo menos três meses por ano, o Kjappen fica coberto de neve e gelo, e não há treino que resista. O campeonato local para completamente nesse período. É difícil imaginar um craque sendo formado num lugar assim, mas foi exatamente o que aconteceu.

Noruega x Brasil em 1998: o 2 a 1 que ainda é muito festejado por aqui e as espectativas sobre a Copa de 2026
Para o torcedor brasileiro, a Noruega tem um lugar bem específico na memória afetiva. Em 23 de junho de 1998, em Marselha, a seleção norueguesa venceu o Brasil por 2 a 1 na fase de grupos da Copa do Mundo. Resultado que ainda hoje provoca calafrios. A Noruega, então um completo azarão, avançou para as oitavas de final. O Brasil sobreviveu ao susto e seguiu em frente — mas o placar ficou.
Aquele era outro time, outra geração. Esta é diferente.
A seleção norueguesa que chega à Copa do Mundo de 2026 tem Erling Haaland, artilheiro da Premier League na temporada 2025/26 com 27 gols. Tem Ødegaard, capitão de clube e do país. Tem Sørloth, Larsen, e a revelação Musa. Os noruegueses não chegam mais como azarão chegam com expectativa real de ir além de 1998. E no Strøtvet, quando a seleção joga, as casas ficam quietas diante da televisão.
Martin Ødegaard e Drammen: a tradição do 17 de maio, a camisa autografada e o vínculo que não se cortou

Ødegaard não mora mais em Drammen ja há muitos anos — cresceu, virou estrela mundial, casou recentemente numa igreja em Lier, cidade vizinha. Mas a ligação com o bairro não foi cortada. Toda festa do 17 de maio — o dia nacional norueguês — ele doa uma camisa autografada para ser sorteada na festa do bairro no Kjappen. Quando a agenda permite, volta ao Strøtvet. Continua sendo, para quem mora aqui, o garoto que cresceu a literalmente poucos metros do campo.
Lucas Pinheiro Braathen: o brasileiro de Hokksund que ganhou ouro olímpico de ski a 18 km do bairro de Ødegaard
A ligação entre esta região da província de Buskerud e o Brasil tem um segundo capítulo. A menos de 20 quilômetros daqui, na pequena cidade de Hokksund, cresceu Lucas Pinheiro Braathen. Filho de pai norueguês e mãe brasileira, aprendeu a amar o esporte jogando futebol em visitas aos avós em São Paulo. Voltou para a neve, trocou a bola pelos esquis, e em fevereiro deste ano ganhou o ouro olímpico no slalom gigante nos Jogos de Milão-Cortina — a primeira medalha olímpica de inverno do Brasil e de toda a América do Sul. O comentarista da NRK, a televisão pública norueguesa, declarou ao vivo que a situação era "um pouco frustrante" — afinal, ele cresceu aqui. No Brasil, claro, ninguém achou frustrante. A festa foi intensa.
Neste pedaço da Noruega, o Brasil está mais perto do que parece. E em 2026, quando a seleção norueguesa entrar em campo na Copa do Mundo, o capitão vai ser aquele moleque que treinou todos os dias durante anos no campinho ao lado da creche dos meus filhos.
Rodrigo Braz Vieira é produtor de televisão, empreendedor da área de turismo e editor do Brasil i Norge. Mora em Drammen, Noruega.




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